
Abra qualquer número de obras de referência bíblica usadas comumente e
olhe para o verbete "Satanás". Você encontrará, provavelmente, uma história
familiar. Eu cito, como típico, o Complete Bible Handbook (Manual Completo da
Bíblia), de L. O. Richards:
"O Velho Testamento indica que Satanás foi
criado por Deus como um anjo governante chamado Lúcifer, com grandes poderes.
Mas o orgulho levou Lúcifer a se rebelar contra Deus (conforme Isaías 14:12-14;
Ezequiel 28:12-15). Torcido agora pelo pecado, Lúcifer é transformado em
Satanás, que quer dizer `inimigo´ ou `adversário´ ...Satanás é um poderoso anjo
decaído, intensamente hostil a Deus e antagonista do povo de Deus." (páginas
245, 801).
Pergunte à maioria das pessoas que crêem na Bíblia de onde
veio Satanás e nove entre dez lhe darão uma versão da história citada acima. A
idéia de que Satanás é um anjo decaído a quem Deus expulsou do céu e que caiu na
terra é tão espalhada que muitas pessoas acreditam que a Bíblia a
ensina.
Pode surpreendê-lo descobrir que a Bíblia não ensina tal coisa. É
certo que há passagens na Bíblia que falam de seres caindo do céu, mas não são
sobre Satanás e usam linguagem figurativa. Somente por uma leitura descuidada
destes textos pode alguém chegar à história popular relativa à origem de
Satanás. Examinemos as passagens bíblicas relevantes, no
contexto.
Quem é
Satanás?
O nome "Satanás" é uma transliteração do hebraico satan, indicando um
acusador no sentido legal, um queixoso que tem uma acusação a apresentar. Em
Zacarias 3:1 lemos "Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava
diante do Anjo do SENHOR, e Satanás estava à mão direita dele, para se lhe
opor." Numa palavra, Satanás se opõe a nós, trabalha contra nós, ou "nos
persegue", na tentativa de nos derrotar espiritual e moralmente. Jesus chamou-o
homicida e mentiroso, em João 8:44. Em Apocalipse 12:9, João retrata Satanás
como um grande dragão, uma representação que ressalta sua terrível natureza.
Esse mesmo versículo identifica-o como a serpente (uma referência a Gênesis 3) e
como o diabo, que é outro nome bíblico comum para ele. Talvez 1 Pedro 5:8 nos
diga o que mais precisamos saber a respeito dele: "O diabo, vosso adversário,
anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para
devorar".A ênfase bíblica está no que Satanás é em relação conosco
(um inimigo). Algumas pessoas, contudo, pensam que certos textos bíblicos vão
mais além e nos dizem como Satanás veio a se tornar assim. Examinemos estes
textos cuidadosamente.
Isaías
14:12-14
Esta passagem diz: "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho
da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias
no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu
trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte;
subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Você
notará imediatamente que esta passagem não menciona Satanás por nenhum de seus
nomes bíblicos comuns. Pode-se extrair deste texto uma teoria da origem de
Satanás somente assumindo que esta passagem descreve-o, e ignorando o contexto
desta passagem na mensagem de Isaías.
Isaías não estava discutindo
Satanás em Isaías 14, nem a origem de Satanás de modo nenhum faz parte desta
mensagem do profeta. Se dissermos que este texto é sobre a origem de Satanás,
isso simplesmente torna sem sentido o contexto mais amplo. Isaías profetizou
durante os reinados dos reis hebreus Uzias, Jotão, Acaz, e Ezequias (Isaías
1:1). Seu ministério abrangeu (aproximadamente) os anos 750 - 686 a.C., uns 65
anos, no máximo. Este foi um tempo quando o povo de Deus tinha se tornado
corrompido pela idolatria. Deus enviou Isaías para pregar o arrependimento ao
seu povo e para adverti-lo de que um fracasso em voltar-se da idolatria
significaria desastre em escala nacional. Isaías pregou a ambos os reinos de
Israel e Judá, cumprindo sua missão dizendo aos povos desses reinos que eles
sofreriam terrivelmente se recusassem arrepender-se. Isaías 10:5-6 resume a
mensagem ao reino do norte. Há linguagem semelhante (13:3-6) reservada para o
reino do sul, o reino contra o qual Deus enviaria os babilônios.
A
mensagem de Isaías não era completamente de desânimo e condenação. Os assírios e
os babilônios, ele pregou, eram simplesmente instrumentos que Deus usaria para
punir o seu povo. Uma vez que Deus tivesse usado essas nações para seus
propósitos, Ele se voltaria e aplicaria seu julgamento sobre eles, pela
impiedade deles próprios. É uma mensagem da soberania de Deus em ação que causa
reverência e temor nos ouvintes. A Babilônia cairia, e depois disso Deus
renovaria e reuniria seu povo e lhes daria uma gloriosa e nova existência.
Isaías 14 é sobre a queda do império babilônico. Isaías diz aos habitantes do
reino sulista de Judá que, depois que eles tivessem sofrido o castigo, viria o
dia quando eles poderiam ver a queda de seu opressor e escarnecer de Babilônia
do modo como esta tinha escarnecido de Judá. Veja os versículos 4 e seguintes.
Isto é sobre Babilônia.
Ora, porque Isaías começaria o capítulo falando
sobre a queda de Babilônia, interromperia com uma descrição da origem de
Satanás, e então recomeçaria a falar sobre a queda de Babilônia? Simplesmente
não faz qualquer sentido aqui no contexto ver 14:12-14 como sendo sobre a origem
de Satanás. O fato é que Isaías estava descrevendo para povo de Judá o que eles
estariam dizendo quando zombassem do rei de Babilônia que tinha sido rebaixado e
decaído do poder (versículo 4). As mesas virariam, e Isaías está descrevendo a
ironia de tudo isso. Até mesmo a leitura corrida da passagem revela que a
linguagem aqui é poética e figurativa, e temos que tratá-la de acordo. "Céu" no
versículo 12 é linguagem figurativa para o que é alto e exaltado, e Isaías está
aqui descrevendo a alta consideração em que o rei de Babilônia era tido. O
profeta descreve sua queda do poder figurativamente, como uma queda do céu.
Então ele chama o rei de Babilônia, também usando linguagem figurada, a "estrela
da manhã". Na sua glória, durante algm tempo, o soberano de Babilônia era como
uma estrela brilhante no céu. Contudo, seu reinado e seu poder cairiam, e,
mantendo as imagens, Isaías pinta sua extinção como uma estrela
cadente.
Parte da incompreensão popular desta passagem resulta do
aparecimento da palavra "Lúcifer" em algumas versões do versículo 12. A palavra
hebraica em questão aqui é helel, que significa "estrela da manhã" e não tem
nenhuma ligação com Satanás. "Lúcifer" é uma velha palavra latina que
originalmente significava "portador da luz" e era o nome do planeta Vênus sempre
que aparecia no céu matinal. Na época que esta palavra foi usada nas traduções
deste versículo, "Lúcifer" não significava Satanás. Infelizmente, para muitas
pessoas, hoje em dia, Lúcifer é o nome de Satanás (porque Isaías 14:12-14 é
aceito como sendo sobre Satanás!). Não é porque os tradutores erraram, mas
porque pessoas de tempos posteriores, ou esqueceram o que Lúcifer significava ou
concluíram erradamente que era o nome de Satanás, ou ambos.
Isaías 14:13
recita a jactância arrogante do rei babilônico. Certa vez ele pensou que era o
maior do mundo, que tinha poder e autoridade igual à do próprio Deus. Uma das
características do retrato profético de Babilônia é seu grande orgulho. Contudo,
Deus rebaixaria seu rei ao mais baixo nível imaginável para a mente hebraica: o
Sheol, o reino dos mortos (versículo 15). Os versículos 9-11 descrevem como os
habitantes do Sheol ficariam surpresos porque alguém que pensava ser tão "alto"
estava agora entre eles, num lugar tão "baixo". O ponto é que o rei babilônico
foi do extremo da exaltação mundana para a extrema humilhação, e isto era um
feito de Deus, o julgamento de Deus. A coisa toda é um quadro, uma imagem, e não
uma narrativa histórica literal. A ênfase está no contraste entre as condições
do soberano babilônico "antes" e "depois". As pessoas, então, olhariam para o
fracasso do rei babilônico e perguntariam: "É este o homem que fazia a terra
tremer, que sacudia reinos, que fazia do mundo um deserto, derrubava suas
cidades, que não permitia aos seus prisioneiros voltar para casa?" (versículos
16-17).
Você vê, então, que quando examinamos Isaías 14:12-14 em seu
contexto, ele não nos diz nada sobre a origem de Satanás. É uma descrição
figurativa da queda do rei de Babilônia. Ezequiel 28:12-16
Outra suposta
passagem sobre a origem de Satanás é Ezequiel 28:12-16, onde se lê: "...
Assim diz o SENHOR Deus: Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e
formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te
cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o
carbúnculo e a esmeralda; de ouro se fizeram os engastes e os ornamentos; no dia
em que foste criado, foram eles preparados. Tu eras querubim da guarda ungido, e
te estabeleci; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas.
Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se
achou iniqüidade em ti. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu
interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei profanado fora do monte
de Deus, e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das
pedras."
A referência ao Éden é, para muitos, um indicador seguro de
que esta passagem tem que ser sobre a origem de Satanás. Não importa que Satanás
já fosse o inimigo do homem no Éden! Mas, novamente, é somente aceitando que
esta passagem é sobre Satanás (a própria coisa que precisa ser provada) que
podemos lê-la desse modo. O contexto aqui argumenta em outra direção.
As
palavras de Ezequiel aqui dizem respeito ao rei de Tiro. Os versículos 1 e 11
tornam isto claro. O capítulo 27 é sobre a queda da nação, e o capítulo 28 é
especialmente sobre a queda do rei dessa nação. Prestar um pouco de atenção ao
contexto esclarece muito! Exatamente como na passagem de Isaías, tomar as
palavras do profeta como descritivas de Satanás e sua "queda" é fazer deste
capítulo um completo contra-senso.
Aqui a mensagem está em duas partes,
mas cada uma delas apresenta a mesma mensagem. Os versículos 1-10 descrevem o
rei de Tiro do ponto de vista de Deus. Como o rei de Babilônia, o rei de Tiro
era orgulhoso, arrogante e jactancioso. Ele se achava divino, e assim declarava
ter uma glória que não lhe pertencia (versículos 2,6,9). O profeta descreve
sarcasticamente a grandeza do monarca nos versículos 3-5. Pela sua arrogância, o
orgulhoso rei colherá o julgamento de Deus. O julgamento sobre ele é que Deus o
abaterá (versículos 7-10). Os versículos 11-19 repetem esta mensagem. O retrato
sarcástico que o profeta faz do rei reaparece nos versículos 12-16. O aumento no
nível de imagens e figuras na linguagem aumenta o sarcasmo. O rei pensava de si
mesmo em termos absolutamente altos, mas para Deus isto era pura loucura. A
referência ao Éden no versículo 13 não é literal, mas significa que o rei
imaginava-se privilegiado acima de todos os outros. Ele pensava que era
especial, como querubim ungido de Deus ou como algém que vivesse na própria
montanha de Deus (versículo 14). Ele se retratava nos termos mais gloriosos.
Pela sua arrogância, Deus o julgaria severamente (versículos 16-19). Novamente,
portanto, quando lemos esta passagem no seu contexto, vemos que não tem nada a
ver com a origem de Satanás.
Lucas 10:18
Em Lucas 10:18, Jesus diz:
"Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago." Aqueles que pensam que
Satanás é um anjo rebelde decaído acreditam que este versículo estabelece o
assunto convincentemente. Contudo, de novo, precisamos olhar para esta afirmação
no seu contexto.
Em Lucas 10:1 e seguintes, Jesus tinha enviado setenta
discípulos numa missão de pregação. Realmente, era mais do que apenas uma missão
de pregação, pois Jesus também os enviou para curar e expulsar demônios
(versículos 9,17). É importante entender exatamente o que estes setenta
discípulos cumpriram e o que o próprio Jesus cumpriu em seu ministério. Enquanto
Jesus estava nesta terra, ele guerreou contra o reino de Satanás. Antes que
Jesus pudesse estabelecer seu reino (o reino de Deus), ele tinha que invadir o
território do inimigo, vencê-lo e tornar o inimigo (Satanás) impotente e fraco.
Isto ele fez pregando o evangelho e demonstrando visivelmente seu poder.
As
curas miraculosas, e especialmente a expulsão de demônios, não eram atos casuais
de bondade; elas eram em vez disso assaltos diretos sobre o reino de Satanás.
Proclamando a "libertação dos cativos" no evangelho (veja Lucas 4:18), Jesus
estava proclamando a derrota de Satanás e do pecado. Jesus veio libertar o homem
do domínio de Satanás, um domínio esumido em pecado e morte.
É no
contexto desta guerra espiritual que temos que entender os milagres associados
com o ministério de Jesus e, mais tarde, dos apóstolos. Os milagres associados
eram físicos, demonstrações visíveis, exemplos, ilustrações do que Jesus pode
fazer pelos homens espiritualmente. Em nenhum lugar isto fica mais claro do que
na expulsão de demônios. A possessão por demônios era uma manifestação óbvia do
domínio de Satanás sobre pessoas. Que maior domínio sobre uma pessoa Satanás
poderia ter do que invadir seu corpo, através de um demônio, e comandar seus
atos? Quando Jesus expulsava demônios ele estava libertando pessoas da garra de
Satanás, Ele estava destruindo o domínio do Maligno sobre elas. Era uma
demonstração especialmente clara, ao nível físico, do poder do evangelho, e era
uma ilustração de como Jesus podia libertar os homens do reino de Satanás e
pô-los sob o reino de Deus.
O mesmo é verdade também quanto às curas
milagrosas de Cristo. Doença e morte eram manifestações do poder de Satanás
sobre o homem. Curando os doentes, Jesus estava livrando pessoas do poder de
morte exercido por Satanás, assim vencendo-o. Observe o que Jesus disse sobre a
mulher que tinha uma doença causada por um espírito em Lucas 13:16: "... esta
filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos" não deveria
ela ter sido libertada, no sábado? Jesus estava demonstrando, em suas curas
milagrosas, seu poder sobre Satanás, seu poder para livrar os homens do domínio
de Satanás. A cura era uma ilustração do que Jesus pode fazer por nós
espiritualmente, através do seu evangelho. Assim, não é coincidência que Mateus
ligue as atividades de pregar o evangelho e a cura dos doentes em Mateus 4:23:
"Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o
evangelho do reino e curando toda a sorte de doenças e enfermidades entre o
povo." Estas duas atividades iam juntas muito naturalmente.
Quando os
setenta discípulos retornaram, relataram seu grande sucesso a Jesus. regozijando
porque "... os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!" (Lucas
10:17). Jesus os havia enviado como um exército para invadir o território de
Satanás e guerrear. Sua campanha tinha tido um tremendo sucesso. Satanás sofreu
uma derrota com cada demônio que eles expulsaram. Jesus respondeu com um
reconhecimento: "Ele lhes disse: Eu via a Satanás caindo do céu como um
relâmpago. Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões, e
sobre todo o poder do inimigo, e nada absolutamente vos causará dano".
(versículos 18-19). Observe a menção de Jesus a "... sobre todo o poder do
inimigo". Satanás estava sendo derrotado no ministério de Jesus. Os setenta
discípulos tinham compartilhado esse ministério, e isso culminaria na maior
vitória sobre Satanás: a morte e a ressurreição de Cristo que decisivamente
derrotaram o poder de Satanás de pecado e morte, respectivamente. Assim, quando
Jesus diz: "... eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago", ele
estava descrevendo quão grandemente seu ministério estava derrotando o poder de
Satanás sobre os homens. O poder de Satanás não mais seria incontestável e
absoluto. Em sua obra, Cristo estava destruíndo o aparentemente invencível poder
do pecado e da morte. Em linguagem que relembra Isaías 14:12-14, Jesus compara o
poder anterior de Satanás a uma estrela, e essa estrela agora caiu. Apocalipse
9:12 e Mateus 24:29 também usam a imagem de uma estrela cadente para descrever a
derrota do poder.
Portanto, novamente, o texto que alegamente prova a
origem do diabo não é sobre a origem de Satanás de modo nenhum. É somente
introduzindo tal idéia no texto que ele pode prestar algum serviço a tal
doutrina.
Apocalipse
12:7-9
Talvez a passagem mais popular quando
se fala sobre a origem de Satanás seja esta, Apocalipse 12:7-9. Ela diz:
"Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão.
Também pelejaram o dragão e os seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais
se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente,
que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a
terra, e, com ele, os seus anjos".Quem quer que alguma vez tenha
olhado para o Apocalipse de João sabe que nele abundam estranhos símbolos. É
somente pela violência de tratar a linguagem simbólica literalmente, e por
ignorar o contexto, que podemos tirar uma história da origem de Satanás deste
texto.
Apocalipse 12 é uma descrição simbólica das circunstâncias
espirituais que causaram e conduziram à perseguição que os leitores de João
enfrentaram. João escreveu o Apocalipse para dar aos seus primeiros leitores uma
visão de seu sofrimento, para vê-la num contexto mais amplo. Eles foram
apanhados numa tremenda luta entre Deus e Satanás. O diabo estava tentando
destruir a igreja, usando Roma como seu agente. João, assim, estava dando aos
seus leitores uma perspectiva de sua situação que poderia ajudá-los a
suportá-la. Como uma descrição simbólica e figurativa não devemos, certamente,
lê-la literalmente, nem devemos tratá-la como alguma espécie de narrativa
cronológica e histórica do que tinha acontecido.
Apocalipse 12 é admitida
como uma passagem difícil, mas os estudantes que vêem o livro do ponto de vista
de seu contexto histórico geralmente concordam que ele é sobre a vitória do povo
de Deus e a derrota de seu inimigo, Satanás. A primeira parte do capítulo
(versículos 1-6) apresenta diante de nós uma história de nascimento de uma
criança do sexo masculino que se torna o dominador das nações. Esta imagem
representa Cristo (a alusão ao Salmo messiânico, Salmo 2, em Apocalipse 12:5
confirma isto). Contudo, um grande dragão (Satanás) imediatamente desafia seu
aparecimento. O aparecimento de Jesus desencadeia uma grande guerra espiritual
(versículo 7). O domínio de Satanás sobre a situação humana tinha, até agora,
ficado indisputado. Quando Cristo aparece, o poder de Satanás sobre o homem é
efetivamente destruído, e Satanás sofre uma derrota esmagadora (versículo 9). A
história básica que João apresenta aqui nos versículos 7 e seguintes é que
Satanás perdeu sua tentativa de ganhar domínio sobre a humanidade. Ee e suas
forças não são adversários para Deus e suas forças. Ele não pode derrotar Deus e
seu Filho. Numa grande destruição, Satanás é lançado abaixo, simbolizando sua
ruína.
Que Satanás tenha sido atirado à terra é, eu penso, significativo.
É uma mudança na frente de batalha. Desde que Satanás não pôde derrotar Deus no
reino espiritual, ele então volta sua atenção para o reino físico, onde ele
espera ser vitorioso. É a mesma batalha pelo domínio espiritual sobre o homem,
mas agora é uma batalha espiritual travada na terra. Agora, em vez de tentar
destruir o Filho de Deus (tentativa que fracassou), ele tenta destruir o povo de
Deus que vive na terra. Satanás inunda a terra com suas mentiras, enganos,
tentações, etc., em seu esforço para destruir o povo de Deus, mas isto também
fracassa (versículos 11,17).
Apocalipse 12:7-9 é sobre como Satanás
recebeu uma derrota esmagadora pelo aparecimento e obra de Jesus. João escreveu
isto para encorajar seus leitores que estavam sofrendo por causa do ataque de
Satanás através de um poder mundial perverso, Roma. Eles poderiam suportar se
soubessem que a vitória era deles. Conhecer a origem de Satanás não teria feito
nada para encorajá-los a perseverar sob provações
severas.
Então, donde veio
Satanás?
Se nenhuma das passagens que são
comumente citadas como relatos da origem de Satanás são realmente sobre sua
origem, então donde ele veio? Bem, não estou certo de que a Bíblia revela a
resposta para nós exatamente. Podemos ter uma curiosidade sobre o assunto, mas
temos que não permitir que tal curiosidade nos instigue a encontrar respostas
que ali não se encontrem.
O melhor que podemos fazer, eu penso, é inferir
umas poucas coisas sobre Satanás.
1º- somente Deus (o Altíssimo) é
incriado. Tudo o mais e todos no universo são criados. Portanto, Satanás é um
ser criado. A Bíblia, em nenhum lugar diz que ele é um ser eterno como Deus.
2º - a Bíblia atribui onipotência somente a Deus (o Soberano). Portanto,
Satanás não é um ser onipotente. Ainda que ele tenha grandes poderes, Deus
limita seu uso deles (conforme 1 Coríntios 10:13; Jó 1-2).
3º - há
seres que foram feitos e que existem acima do nível humano. Podemos chamá-los
seres espirituais por falta de um termo melhor. Entre estes seres espirituais
estão os anjos, mas estes aparentemente não são os únicos tipos de seres
espirituais (conforme Efésios 6:12; Apocalipse 4-5). A respeito desta ordem de
seres, conhecemos mais sobre anjos do que quaisquer outros. O quadro que obtemos
pela palavra de Deus é que seres espirituais são muito mais interessados em
negócios da terra e, às vezes, estão envolvidos neles. Por exemplo, anjos
mediaram a Lei de Moisés (Gálatas 3:19), anjos anunciaram a ressurreição de
Cristo (Mateus 28:5), e anjos desejaram ver o cumprimento do plano de Deus de
salvação (1 Pedro 1:12). Embora isso possa ser uma especulação, também parece
que seres espirituais, conquanto sejam criados, não obstante não são ligados em
sua existência às limitações de tempo ou idade.
4º - A Bíblia em lugar nenhum
identifica Satanás como um ser humano. Ele é, obviamente, um dos seres
espirituais sobre os quais lemos na Bíblia. Isto não quer dizer que Satanás seja
um anjo. De fato, teria sido muito fácil, em qualquer dos contextos e para
qualquer dos escritores, dizer que Satanás era um anjo, mas eles nunca o
disseram. Ele é, não obstante, um ser espiritual e a Bíblia o descreve como,
entre outras coisas, "o príncipe da potestade do ar" (Efésios 2:2). Vemos
Satanás, pela primeira vez, no Jardim do Éden (Gênesis 3), justo no começo da
história humana, e ele tem existido continuamente desde então.
Conclusão
Num sentido muito significativo, não
importa de onde Satanás veio. A ênfase na Bíblia cai, em vez no que ele faz. Não
é como ele veio a existir que preocupa. É o fato que ele existe que nos
preocupa. Ele continua a trabalhar contra nós em sua tentativa de dominar a
humanidade, e para nós Jesus deixou a continuação da guerra.
"Quanto ao mais,
sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a
armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque
a nossa luta não é contra o sangue e a carne e sim contra os principados e
potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças
espirituais do mal, nas regiões celestes" (Efésios 6:10-12).